Para uma nova geração de pesquisadores de comunicação, Wanderley Andrade (foto), Gaby Amarantos, Gaiolas das Popozudas e o gosto popular estão em alta. É hora de estudá-los
E não é que a academia se rendeu à música popular popularíssima. O brega do Norte e do Meio Norte, o brega de Pernambuco, o arrocha, o tecnobrega, o tecnomelody, as rodas de funk (e não de samba!), a Gaiola das Popozudas, a Gaby Amarantos. Todos eles viraram objetos de pesquisa. Em breve, vão virar dissertações e teses acadêmicas. Não é de hoje que o olhar do pesquisador se volta para a música. O que não se via com tanta frequência é uma grande vontade, traduzida em inúmeras pesquisas em andamento, de tentar explicar o que o povo ouve, gosta, dissemina, e que aqueles que defendem a “alta cultura” abominam.
Estamos na 35ª edição do Intercom, congresso de pesquisadores da comunicação que estão reunidos em Fortaleza (o evento se encerra hoje, com show do acordeonista Waldonys). Discute-se de tudo – política, economia, publicidade e propaganda, educação, saúde, esportes, redes sociais, novela, isso mesmo, a personagem Carminha de “Avenida Brasil” vai ser decifrada, pelo menos academicamente. Mas o grupo de trabalho que me chamou atenção foi o de Comunicação, Música e Entretenimento e a sessão ocorreu ontem à tarde. Estavam ali pesquisadores de universidades do Rio, do Pará, do Maranhão e até de Barcelona, na Espanha.
De Pablo Laignier, pesquisador da UFRJ, que faz um doutorado sobre a APAFunk, descubro a quantas andam o programa da galera do funk na Rádio Nacional, um feito extraordinário para o reconhecimento do gênero tanto discriminado por parte da imprensa. Fico sabendo também das conquistas políticas da associação, às voltas com uma onda neoconservadora do governo do Rio de controlar/proibir/discriminar o movimento. Em seu artigo, Pablo explica a sua predileção: “O funk é ‘música na veia’, e assistir a uma roda como esta significa, em algum momento, deixar de lado a sisudez tão característica da academia e juntar-se às pessoas (das classes populares ou abastadas) em movimentos repetidos e sensuais. Em maior ou menor grau, o funk mistura…”Já a jovem mestranda Simone Evangelista Cunha, da Universidade Federal Fluminense, que pesquisa as representações do funk carioca no YouTube, se debruça sobre os comentários do público que giram em torno de algumas canções da Gaiola das Popozudas, como as versões de “Agora eu sou solteira”. O vídeo oficial foi gravado no DVD “Tsunami II” e já tem mais de 12 milhões de visualizações e 3 mil comentários. Segundo Simone, “entre as opiniões registradas na página do vídeo, destacam-se visões de mundo de pessoas que se apresentam como representantes de uma cultura mais ‘legítima’ em oposição aos fãs da música, que seriam ‘favelados’ e ‘sem cultura’.”
Paula Velôzo, doutora pela Universidade Autônoma de Barcelona, decidiu estudar o brega de Pernambuco e se deparou com uma completa ausência de pesquisas anteriores sobre o tema. Ela lembra que quando fazia a coleta de dados para o doutorado, em 2008, os artistas do movimento e seus fãs estavam no “limbo”, mas que hoje a cena é completamente diferente. O gênero ganhou novo fôlego com o crescimento da classe média, do crédito bancário e da tecnologia à disposição de todos. “O brega volta a ter êxito importante nos meios de comunicação, adquire cada vez mais notoriedade e interesse da Academia, despe-se do seu vestido ‘kitsch’ e ganha status de ‘cult’ na classe média”, diz. E, mais que isso, deu ao brega “novas lógicas produtivas” que a permitirão sobreviver “ao rechaço dos meios de comunicação massivos”.
Na hora, pensei: “Isso vale para o brega, mas também para o funk, o rap, o forró eletrônico, a música eletrônica, o indie e qualquer outro gênero musical fora do eixo…”
O Pará e suas riquíssimas cenas musicais estiveram duplamente representadas no painel da Intercom, com Elielton Alves Amador e Talita Cristina Araújo Baena, mestrandos pela Universidade Federal do Pará. Talita vê os gêneros musicais como tecnobrega, guitarrada e eletromelody fazendo parte da nova onda de inserção da Amazônia no Brasil e no resto do mundo, ganhando uma visualidade e visibilidade potencialidade na e pela internet. Óbvio que ela citou o Circuito Fora do Eixo e a Conexão Vivo como as principais redes de fomento e de circulação nacional dos artistas locais, rompendo as fronteiras do Estado paraense.
Elielton, por sua vez, questiona os significados da ascensão de Gaby Amarantos na cena musical brasileira. Estariam outros artistas paraenses “surfando” na onda dela? Poderá haver uma reconfiguração dos mapas de referências culturais, econômicas e sociais? O pesquisador, que também é diretor de conteúdo do portal Pará Música, lembra ainda que a própria emissora regional chegou a banir a artista, mas teve de voltar atrás e hoje ela se destaca na trilha sonora de “Cheias de Charme”. Seria uma tentativa de a TV Globo querer se reaproximar das audiências emergentes a partir de uma nova realidade “Amazônica”, questiona.
Último a falar, o mestre em Comunicação e radialista Rogério Costa brindou a plateia com os esboços de sua pesquisa sobre o universo musical brega do Meio-Norte brasileiro (Maranhão e Piauí) e no Pará. Ele fala da transição da música cafona, considerada de “gosto obscuro” no passado, com nomes como Odair José (hoje venerado e até cultuado pela classe artística), para uma que com um apelo afetivo/emocional, mesclada com o sarcasmo, comum na região. O melhor exemplo é o paraense Wanderley Andrade, artista com mais de 30 anos de carreira, que faz uma mistura do calypso paraense e com o swing caribenho em músicas originais e covers de Dire Straits, Little Richard, Chuck Berry, entre outros.
Outro nome lembrado por Rogério é “Júlio Nascimento, que registra em suas autorias a chamada dor de cotovelo; a música de fossa ou de paixão melancólica”:
Quando eu cheguei do garimpo eu procurei a minha mulher
Ela tinha saído com outro e o cara eu não sei quem é
Eu garimpei muito ouro, mas o meu tesouro já tinha dado no pé
A vida de garimpeiro é pra ganhar dinheiro e sofrer por mulher.
Leidaiana meu amor eu ainda tô chorando. quero que volte eu ainda tô te esperando (bis)
Gêneros e cenas das periferias brasileiras que vão, aos poucos, sendo decifrados à luz do conhecimento deixado por pensadores como Theodor Adorno, Max Horkheimer, Jean Baudrillard, Michel Foucalt, Armand e Michele Mattelart, Umberto Eco, Pierre Lévy, Jesus Martin-Barbero, Anthony Giddens, Gilles Lipovetzky, Marshall McLuhan, Guy Debord. É um exercício que vale a pena ser acompanhado. É o Brasil redescobrindo seu Brasil mais profundo, cada vez mais com a chancela do conhecimento científico. Isso é bom, muito bom!
Em tempo: nesta edição do Intercom, ninguém discutiu o último disco de Chico Buarque.
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Tags:Anthony Giddens, Armand e Michele Mattelart, Chico Buarque, Chuck Berry, Dire Straits, Elielton Alves Amador, Gaby Amarantos, Gaiola das Popozudas, Gilles Lipovetzky, Guy Debord, Jean Baudrillard, Jesus Martin-Barbero, Júlio Nascimento, Little Richard, Marshall McLuhan, Max Horkheimer, Michel Foucalt, Odair José, Pablo Laignier, Paula Velôzo, Pierre Lévy, Rogério Costa, Simone Evangelista Cunha, Talita Cristina Araújo Baena, Theodor Adorno, Umberto Eco, Waldonys, Wanderley Andrade




Gêneros considerados povão sempre existiram.As emissoras ainda pertencentes a grandes grupos executam aquilo que consideram e pronto.Não vivemos uma democracia, muito menos a cultural onde a multi diversidade de gêneros musicais tenham amplas possibilidades de apresentarem seus trabalhos.
Analisar um fenômeno cultural é válido,deixar-se levar pela correnteza,não.